Jerusalém segue redesenhando o seu futuro a partir das camadas mais profundas da cidade. Em um espaço que por décadas funcionou como um depósito operacional de ônibus – pensado para o movimento, não para a vida urbana – começa a tomar forma um dos projetos de transformação mais ambiciosos da capital na última década. O complexo do depósito da Egged, no bairro de Talpiot, na confluência da Rua Moshe Baram com a Estrada de Hebron, está destinado a se tornar um distrito urbano intensivo, combinando moradia, emprego, comércio, cultura e transporte público em escala metropolitana.
A comissão local de planejamento e construção recomendou o depósito formal do plano, promovido pela Prefeitura de Jerusalém em parceria com a Eden, a empresa municipal de desenvolvimento econômico. Para urbanistas, o local é visto como peça estratégica na renovação de Talpiot e na consolidação da tendência de adensamento e verticalização no sul da cidade. Deixa de ser uma área industrial isolada para integrar um tecido urbano ativo, apoiado em três linhas de VLT planejadas – azul, roxa e turquesa – e conectado diretamente a eixos centrais como a Estrada de Hebron, Pierre Koenig e Yad Harutsim.
Como o projeto do depósito da Egged em Talpiot está mudando o mapa urbano de Jerusalém?
O plano abrange cerca de 73 dunams e propõe a demolição do depósito existente para dar lugar a um complexo urbano de uso misto. Segundo o projeto, serão construídas oito torres residenciais com alturas entre 13 e 50 andares, assentadas sobre bases ativas que integrarão comércio e áreas de trabalho. No total, estão previstas cerca de 2.000 unidades habitacionais, das quais pelo menos 20 por cento serão apartamentos compactos de até 80 metros quadrados, além de aproximadamente 1.000 unidades destinadas à locação de longo prazo, por um período mínimo de 20 anos.
Além das moradias, o plano inclui cerca de 60 mil metros quadrados de áreas de emprego em um edifício separado, aproximadamente 9.200 metros quadrados de comércio, espaços públicos, instituições educacionais e culturais, além de equipamentos esportivos. Entre eles, uma piscina com a possibilidade de um campo de futebol sobre sua cobertura e um ginásio de basquete. Abaixo do nível da rua, estão previstos amplos estacionamentos subterrâneos com infraestrutura para carregamento de veículos elétricos, bem como um terminal subterrâneo de ônibus com cerca de 7 dunams, preservando a vocação de transporte do local em um formato urbano contemporâneo.
O espaço público ocupa um papel central no conceito do projeto. Uma praça urbana, áreas abertas paisagísticas, caminhos para pedestres e ciclistas, playgrounds, áreas verdes e elementos aquáticos foram pensados para criar ruas vivas e ativas. A prioridade ao transporte público e à circulação a pé faz parte de uma visão mais ampla de desenvolvimento urbano sustentável.
O projeto foi apresentado pelo Grupo Netzba e concebido pelo arquiteto Yigal Levi, integrando o plano diretor Talpiot 2040, um marco estratégico que busca transformar a antiga zona industrial em um dos principais distritos de negócios, moradia e cultura de Jerusalém.
Segundo o prefeito de Jerusalém, Moshe Lion:
“Talpiot está se transformando em um distrito avançado e inovador no coração de Jerusalém. A região vive um momento de planejamento e execução sem precedentes. Foi exatamente isso que imaginamos ao aprovar o plano Talpiot 2040. Hoje vemos essa visão ganhar forma e se materializar ao seu redor, criando um novo e impressionante continuum urbano. Este é o rosto do futuro, e tenho orgulho disso.”
A transformação de Talpiot não ocorre de forma isolada. Ela se soma a uma série de grandes projetos urbanos que Jerusalém vem promovendo nos últimos anos para enfrentar a escassez habitacional, as mudanças nos padrões de emprego e a crescente competição entre cidades por jovens moradores e empresas. No caso do depósito da Egged, o projeto se torna um teste decisivo: até que ponto uma cidade acostumada a crescer com cautela e sob o peso da história conseguirá criar quase do zero um distrito denso, vertical e ambicioso, sem comprometer o delicado equilíbrio de seu caráter urbano.


